índia (parte 1)
onde eu estive, e no que estive pensando.

dois ou três anos atrás, li o livro A máquina do tempo, do H. G. Wells. me sinto um pouco como o Viajante, voltando a escrever a revistinha. volto exatamente para onde sempre estive, o último lugar onde lembram de me ver, como se nunca tivesse saído, mas na realidade tendo vivido numa realidade absolutamente desconhecida por um tempão.
por onde eu começo?
Lá e de volta outra vez
no final de novembro, Augusto e eu nos sentamos numa cadeira num aeroporto que parece uma rodoviária e abrimos nossas contas bancárias. ele me pergunta se eu não converti meu dinheiro ainda, ao que eu respondo que não. não sei dizer por que motivo. em algum nível, não achei que realmente teria um motivo pra converter meu dinheiro para rupias. talvez eu só não quisesse zicar a viagem. de qualquer forma, isso me faz ter que pagar mais caro quando realmente converto. tudo bem.
em São Paulo, compramos álcool em gel e lenços umedecidos numa farmácia do shopping Plaza Sul. eu imprimo meu certificado de vacinação numa gráfica superfaturada. tudo bem! em Guarulhos, todos nós abrimos nossas malas e reorganizamos o conteúdo de cada uma. eu dou uma cópia da chave do meu cadeado pra Nicole e uma pro Augusto, a terceira fica comigo, pro caso de uma ou duas sumirem. acho que os dois ainda estão com as respectivas cópias até hoje. perdemos tempo perambulando pelo aeroporto, até que está em cima da hora e a fila do check-in está dando a volta no guichê. nos esprememos e aguardamos muito pacientemente até que um funcionário da companhia aérea puxa todos nós pra uma fila separada de prioridade. o avião claramente vai atrasar um pouco.
corremos pelos terminais. minhas canelas queimam como nunca antes. a dor vai me acompanhar até o outro lado do mundo. mas o avião não sai sem a gente.
O VOO
transito entre o sono e a consciência em intervalos irregulares por 15 horas, sendo acordada por uma bandeja de pipoca caramelizada sendo quase arremessada na minha direção. aceito uma. sorvete chique de chocolate? sim, por favor. não importa se eu não gosto de sorvete de chocolate. kit kat? biscoff? frango ou [ininteligível]? frango, por favor. acordo bem a tempo e vejo o rio Nilo pela primeira vez. é como se Deus tivesse cronometrado. no aeroporto do Qatar, sinto que estou entrando no shopping Iguatemi de chinelo. estou de tênis, mas a sensação é a mesma. está de dia, por algum motivo. andamos uns 10mil passos dentro do aeroporto e gastamos por volta de um bazilhão de reais. só depois é que me lembro que posso resgatar meus pontos do voo pra gastar na duty free. tudo bem!!!
embarcamos em mais um voo. estou no meio de dois estranhos na última fileira. não consigo ver meus amigos. tomo meu primeiro ginger ale da vida e depois chá preto com leite. que se dane! estou indo pra cidade dos sonhos.
MUMBAI
são duas da manhã. encontro três dos meus quatro companheiros de viagem na porta do avião. esperamos e esperamos, mas o quarto não aparece. vamos em direção à Imigração, o único destino possível do nosso colega desaparecido. brigo com a máquina de pré checagem, que não quer reconhecer meu passaporte e comete um crime de ódio ao tirar uma foto minha do nada depois de 24 horas de viagem. eu venço. óbvio. na porta da imigração de facto, encontramos o João Pedro. nossa falha de comunicação garante a maximização do tempo na fila do controle de passaporte. tudo bem!!!!! encontramos nossa bagagem sendo guardada por um funcionário solitário, fora das esteiras, 2 horas depois do pouso. marchamos em direção ao estacionamento, e eu finalmente sinto que estou em um lugar estranho. o ar e as buzinas.
de algum jeito, João consegue um Uber. nos amontoamos, 6 num carro para 5. Mumbai! estamos do lado errado da rua e o motorista do lado errado do carro, o trânsito é indescritível, e tudo parece saído de um sonho febril. na porta do hotel, passamos pelo nonagésimo quinto raio x da viagem. lá dentro, um silêncio que não vamos encontrar de novo até voltar para o Brasil. dizemos o nome da empresa para a recepcionista, que não reconhece. dizemos o nome do nosso chefe. da chefe do financeiro. ah sim! [nome alternativo da empresa, no qual nenhum de nós pensou]. isso! exatamente. passaportes, por favor. 20 minutos depois, subimos de elevador e nos separamos. 5 minutos depois, batem à porta. tem um cara dormindo no quarto dos meninos. como assim? quem é esse cara? eles descem à recepção.
vamos dormir.
acordo congelando. a cama é deliciosa, a melhor coisa que me aconteceu desde antes de pegar o avião pra são paulo, mas o ar condicionado parece querer compensar. tem duas configurações: zero diferença e zero graus, e nós aparentemente escolhemos a segunda antes de dormir. levanto e me enfio embaixo do chuveiro, indescritivelmente perfeito. lavo o cabelo, que pedia socorro. Rafa e eu descemos ao restaurante, eu sem óculos porque me sinto feia com eles, então só reconheço as pessoas que a Rafa chama pelo nome. felizmente, são poucas.
durmo mais. o barulho de um casamento no jardim impede que seja por muito tempo. assistimos da nossa janela, e é belíssimo, as cores são insanas.
no último andar, descubro que meus colegas de trabalho têm pernas. D pergunta meu nome duas ou três vezes. me sinto acuada, e ao mesmo tempo elétrica. conheço meu gerente, que me entrega meu primeiro crachá da vida. meu chefe está usando a mesma roupa de sempre. pego duas xícaras de chai, algo de que me arrependerei amargamente em meia hora, quando começar a sentir a necessidade insana de fazer xixi no meio da palestra dos fundadores.
no dia seguinte, vamos de ônibus até o porto de Mumbai, num calor terrível. no check-in do navio, descobrimos que vamos ter que entregar nossos passaportes para a equipe do cruzeiro e só poderemos recuperá-los na manhã seguinte. brasileiros, colombianos e marroquinos se entreolham sem saber o que fazer. o que não tem remédio, remediado está. salvo o número do consulado do Brasil em Mumbai, just in case. tudo bem!!!!!!!!
subo a rampa do navio e imediatamente quero descer. o calor, os tetos baixos, o mar arábico. não existe internet. no almoço, a pimenta me faz chorar. a pimenta vai me fazer chorar mais muitas vezes e perder 3kg em 8 dias, mas eu ainda não sei disso. ainda não sei de muitas coisas.
O CRUZEIRO
a cozinha se recusa a deixar que Augusto peça 7 pizzas grandes sabor marguerita para o quarto em que todos nós internacionais nos juntamos. quando o Roberto liga, dá certo rapidinho. questão de vibe.

devidamente alimentados pela primeira vez em umas 12 horas, perambulamos pelo navio. crio coragem pra entregar um chaveiro da bandeira do Brasil pra um dos meus colegas de departamento com quem não tinha conversado muito antes. momento Life Is Strange de Essa Escolha Terá Consequências, mas não vem ao caso. de algum jeito, chega a nós a notícia de que um certo alguém foi preso no Brasil, e eu tomo meu primeiro shot de tequila da vida na festa do navio. odiei!
nunca em toda minha vida vi festa igual às da Índia. meus colegas de trabalho ficam irreconhecíveis. vamos dormir mega tarde.
na noite seguinte, praticamente não dormimos. eu sinto que alguma coisa muda dentro de mim, mas é cedo pra dizer. deixo Nicole tirar uma soneca às 6 da manhã e subo para o deck mais alto, na esperança de ver o nascer do sol. encontro Y, que não conheço muito bem, mas chamo pra ir comigo mesmo assim. a buzina do navio quase me faz derrubar o celular no mar. a neblina (ou poluição) não deixa que o nascer do sol seja muito impressionante, e eu volto para dentro. tomamos nosso último café da manhã e descemos do navio.
choro ao me despedir dos meus colegas, o que é bem previsível da minha parte. eu, Nicole e Augusto pegamos um táxi até Parali, onde vamos passar os próximos dois dias.
A CHÁCARA
a equipe à qual pertencem Nicole e Augusto reservou uma espécie de chácara para passar mais um tempo depois da viagem oficial da empresa. eu, de outro departamento, sou incluída, uma espécie de pet. a casa é imensa, mas tem um leve cheiro de fechada. a piscina é belíssima. o calor não dá trégua. nossas colegas querem nos mostrar um filme. Yeh Jawaani Hai Deewani muda minha vida pra sempre, e some com o mau-humor que tomou conta de mim nas últimas horas. a fome etc. eu durmo por 12 horas na primeira noite.
na última, entro na piscina com todo mundo e sinto que não é muito diferente de estar no Brasil. tenho um momento meio we are the world, we are the children, mas guardo ele pra mim enquanto brincamos de queimada na água. eu <3 a globalização.
DELHI
a próxima parada é a capital, e o voo para Delhi quase me mata. estou começando a ficar meio doente, e o nariz entupido faz com que a diferença de pressão doa horrores. a qualidade do ar na cidade faria um paulistano rezar de joelhos pra que são paulo nunca mude.
continua…
(a partir daqui talvez o email corte, mas a edição continua no aplicativo!)
ando monotemática desde que voltei da Índia, então aqui estão algumas indicações relacionadas:
os filmes Yeh Jawaani Hai Deewani e Om Shanti Om. básicos, mas aparentemente meu tipo de filme favorito é um filme com a Deepika Padukone. o primeiro tem a melhor trilha sonora do milênio. destaques: Balam Pichkari, Badtameez Dil e Subhanallah. não posso falar da trilha sonora de Om Shanti Om porque meu colega D pulou todas as cenas musicais. reclamem com ele.
a música Akhiyaan, do duo Mitraz. quando alguém te manda essa música pra escutar, você meio que tem que adivinhar que não vai dar mais pra viver a vida do mesmo jeito. ou talvez essa seja uma experiência individual minha. não vem ao caso!
se estiver por São Paulo, o restaurante Curry's (3 unidades espalhadas pela cidade) é uma boa introdução à culinária indiana, mas com bem menos pimenta. minha refeição favorita na Índia foi bem previsível, dada a cor da minha pele: butter chicken com naan de queijo, e você pode pedir os dois no Curry's. vale experimentar o mango lassi e o chai também.
breve sessão de perguntas e respostas sobre a Índia
P: Por que você foi pra Índia?
R: A empresa onde eu trabalho é indiana. Foi a confra da firma.
P: A Índia é igual a gente vê nos filmes/na internet mesmo?
R: Não e sim. Mas principalmente não. E depende do filme que você tá vendo.
P: O trânsito é caótico mesmo?
R: Você não imagina.
P: Eles realmente comem usando as mãos?
R: Sim, e é bem mais prático pra culinária local, inclusive.
P: Eles realmente [insira aqui algum estereótipo maldoso sobre cheiros/hábitos de higiene/machismo]?
R: Não na minha experiência. Um país tão imenso e tão diverso como a Índia não é estático, e não cabe dentro de um reel de 1 minuto, ou um filme orientalista qualquer que passe na televisão, ou na novela Caminho das Índias, ou mesmo nesse meu relato. O Brasil tem todos os mesmos problemas, numa língua diferente. Eu não senti medo ou tive nenhum problema insano, e todo mundo me tratou muito bem. E, sinceramente, a pergunta me ofende.
P: Você viu vacas andando na rua?
R: Sim!
P: Você teve que usar hijab? (essa eu ouvi mais de uma vez)
R: Você está pensando no país errado. Não.
P: Você quer voltar?
R: Se pudesse já tinha voltado.
estou de volta! até a próxima, quando vamos falar do Taj Mahal <3. a minha vida é outra desde que voltei, mas isso você provavelmente pôde notar.











Que tudo Lett!!! Ansiosa pra ler a parte 2 🫶🏻
AFEEEEEE TE AMO!!! amo saber mais da sua vida viagens e etc e tudo!!! Quero já a parte dois, e adorie akhiyaan <3 Vamos voltar no curry's quando em em