índia (parte 2)
antes tarde do que ainda mais tarde.
DELHI
estou me sentindo péssima. com fome, com sono e com dor. o cansaço de uma viagem tão longa finalmente me alcança, e tenho plena consciência de que estou sendo má companhia pros meus amigos. no Uber a caminho do AirBnb, choro quando leio uma mensagem da Dani dizendo que tudo bem eu querer comer pizza e não aguentar mais me aventurar na culinária apimentada. sinto falta do meu psicólogo.
arrumamos mochilas menores, Augusto manda uma sacola com roupas de nós 3 pro serviço de lavanderia anunciado na parede da sala, e sinto um alívio arrebatador quando entro no táxi que contratamos para nos levar até Agra, porque tem lanchinhos. batata chips, biscoitos com a cara do Shah Rukh Khan, água. a viagem é longa, porque o limite de velocidade na Índia é de cerca de meio km/h na rodovia. não reclamo, porque nem imagino o desastre que seria se aumentassem. tento não cochilar, mas não consigo evitar. por mais que eu esteja no carro de um estranho em outro continente, o sono é mais forte que o bom senso.
paramos no equivalente indiano do Graal, e me sinto uma atracão de circo por ser estrangeira. compramos uma garrafa de Maaza, que vai ser o jantar. que saudade de Maaza, meu deus. decido não usar o banheiro de agachar.
em Agra, já tarde da noite, encontramos minha querida amiga V, que foi de Lucknow encontrar a gente ali com os presentes mais maravilhosos possíveis. contamos tudo da viagem pra ela, que trabalhava na mesma empresa alguns meses antes. pedimos uma pizza que quase não chega, ouvimos o filho do dono da pousada chamar o entregador de burro, ficamos conversando até duas da manhã sabendo que tínhamos que acordar 4:45 pra poder ir ao
TAJ MAHAL
acordo com frio de novo. como a Índia é fria! pulo da cama sem pestanejar e me enfio embaixo do chuveiro (deja vu?). lavo o cabelo, que clamava por shampoo. Nicole e V vão acordando aos poucos. visto a saia branca que eu tinha manchado de molho de pizza no navio, e que D me ajudou a limpar na chácara. enrolo no pescoço o xale que V me deu de presente, uma das coisas mais lindas que eu tenho agora. saímos combinando, eu de xale vermelho e ela de azul. encontramos nossos guias na entrada da rua e subimos num carrinho de golfe……. do governo da Índia.
nunca foi tão claro o fato de que, se você não conhece ninguém, você não é ninguém. o pai da V conhece alguém no departamento de arqueologia, que nos arrumou ingressos grátis pro Taj Mahal, além do carrinho de golfe e um guia. passamos na frente de todos os estadunidenses na fila, passamos por mais um raio x e estamos dentro de uma das 7 maravilhas do mundo.
e caramba, que frio.
a cada 15 passos, nosso guia nos para a fim de tirar uma infinidade de fotos. não reclamo, porque esse é o tipo de coisa que você quer registrar. e fica como dica, caso você esteja na Índia e vá a qualquer lugar turístico, contrate um guia. se pra mais nada, simplesmente pra que ele tire suas fotos. eles conhecem todos os ângulos, todos os truques, todas as poses. e se você vai ao Taj Mahal, vai querer tudo isso.
o jardim é imenso e uma caminhada muito agradável até o prédio de fato. vejo muitos pássaros diferentes, incluindo corvos, que eu nunca tinha visto antes e são desde sempre meu pássaro favorito. na Índia, eles e os pombos competem pra ver qual vai dominar a paisagem, com verdadeiros enxames ocupando as praças, ruas, prédios.
pra pisar no mármore, você tem que vestir touquinhas nos pés. compreensível! podemos tocar as paredes, ver de perto os detalhes do trabalho de “pintura” decorativa que na verdade é inteiramente de pedras coloridas cortadas no formato de flores e pétalas. em nenhum momento consegui me acostumar com o fato de que, por algum capricho divino ou presente do universo, eu estava no Taj Mahal. é meio turista da minha parte, os meus amigos indianos não sentem o mesmo, mas caramba. ele realmente merece ser chamado de maravilha.
na saída do prédio, tento ligar pros meus pais, que estão prestes a ir dormir. não consigo ouvir o que eles dizem direito, mas tudo bem. foi o tipo de momento que implorava pra ser compartilhado com aqueles que você mais ama.
vamos embora, e eu assisto um vendedor convencer o Augusto a levar um conjunto de porta-copos feito do mesmo mármore do Taj Mahal. só estou feliz por não estar no lugar dele, e mais feliz ainda tomando uma xícara fumegante de chai. não sei se comentei que estava frio?
de volta à pousada, o café da manhã está a todo vapor. não relaxamos muito, e pegamos nosso carro em direção a mais um ponto turístico.
O FORTE DE AGRA
o Taj (ficamos íntimos) foi emocionante, mas o forte foi o lugar mais interessante da viagem (PRA MIM. meus amigos estavam meio exaustos). convenço todos eles a pagarem por mais um guia, que é muito querido e paciente, e também tira ótimas fotos, mas principalmente nos ensina muito. fico nos calcanhares dele, o bloco de notas aberto pra eu poder anotar cada detalhe e contar pro meu pai depois. ele nos conta sobre a arquitetura, a prisão do imperador Shah Jahan na torre que dá vista pro Taj Mahal, onde sua esposa estava enterrada, sobre as ilusões de óptica, a tecnologia de controle de temperatura, as paredes ocas. tiramos fotos excelentes da Nicole e do Augusto nessas últimas.
em um dado momento, fico com medo da Nicole desmaiar de sono e de fome, mas ela aguenta bem. nós 4 nos sentamos nos degraus da saída, eu e V reclamamos do último disco da Taylor Swift e da colonização da Índia pela Inglaterra. depois disso vamos almoçar.
AGRA
até aqui, andamos apenas de carro e de ônibus. ou seja, não vivemos nada. a diversão começa no momento em que você sobe no seu primeiro tuk tuk.
eu, V e Nicole nos esprememos no banco de trás, e Augusto abraça o motorista no improvisado banquinho da frente. eu sinto que estou num filme, o trânsito não pode me atingir, os carros jamais vão bater. finjo costume e vamos até um restaurante que a V encontrou um mês atrás no Instagram, o belíssimo Desi Vibes. está vazio, e muito bem decorado, e nós estamos famintos, mas completamente sem coragem de escolher por nós mesmos, então deixamos V escolher — qualquer coisa que tiver menos pimenta. é muita pressão, mas ela se sai muito bem. é o especial branquelo: butter chicken e naan de queijo, acompanhado de limonada. ainda tem pimenta, mas dessa vez é agradável. não posso pensar muito nessa refeição porque fico triste, quero voltar e comer de novo. pela primeira vez em muitos dias, nos sentimos cheios depois de comer.
agradecemos entusiasticamente os funcionários, e voltamos pro tuk tuk. dessa vez, vai demorar pra sair dele.
SIKANDRA
o plano era ir visitar uma igreja primeiro, mas o trânsito desanima até o motorista do nosso tuk tuk. ele sugere largar mão da igreja e ir direto pra Sikandra, e, já cansados, concordamos. Nicole COCHILA no tuk tuk, o que eu não sabia que era possível, e eu me agarro ao braço dela pra que ela não caia pra fora do carro.
muito tempo depois, descemos em Sikandra, nos limites da cidade. é a tumba do imperador Akhbar, o maior imperador Mughal da Índia, de meados do século XVI. mais um parque belíssimo, e dessa vez tomado não por pássaros, mas por macacos.
eu não sou a maior fã de macacos do mundo. e se você visse esses macacos específicos, eu acho que concordaria comigo, embora Nicole e Augusto não tenham parecido preocupados. eram muitos macacos, um mais irritado que o outro, alguns brigando entre si, outros brigando consigo mesmos, e eu rezando pra eles não farejarem o meu medo e brigarem comigo. calafrios.
eles nos deixam passar, e é um prédio muito bonito! por fora. a tumba em si é meio anticlimática, coisa que eu não esperava pro lugar de descanso de um grande imperador. saindo do parque, começo a receber mensagens da minha família no Brasil, que está acordando agora. fico indignada. já vivi um dia inteiro.
A LOJA DE CHÁ
no caminho de volta pra pousada, nosso motorista diz que gostou muito de nós e quer nos levar pra tomar uma xícara de chai (e ganhar comissão do dono da loja, provavelmente). eu quero muito, mais que tudo, e todos os meus amigos sabem disso. então deixamos que o motorista nos leve até uma portinha discreta em algum lugar que eu sinceramente não lembro onde é. o sol termina de se pôr lá fora e nós conhecemos uma figura muito divertida na loja, o dono, que faz chai do jeito mais poético: botar uma panelinha no fogaréu no chão, misturar esse e aquele tempero, adicionar uma quantidade indiscriminada de leite em pó e esperar a coisa toda quase transbordar. é minha xícara favorita da viagem, e eu sei que preciso levar um pacote da mistura dele de volta pro brasil, custe o que custar. Nicole me lembra que talvez a alfândega não goste, mas preciso arriscar. vocês não entendem. é irresistível.
conhecemos um colombiano que também está a passeio e também foi levado até ali pelo seu respectivo motorista. ele entende e ri quando pergunto pro Augusto, em português, se ele precisa de ajuda pra recusar a insistente venda que nosso chef tenta fazer pra ele. Augusto garante que tem tudo sob controle.
acho que é aqui que percebo que quero voltar pra Índia o mais rápido que puder. não sei explicar. você precisa sentir.

o motorista nos deixa de volta na pousada, e pede que eu escreva uma mensagem pra ele em português no caderninho que carrega consigo. é aí que ele nos conta que não sabe ler e escrever, não passou muito tempo na escola, mas aprendeu inglês de ouvido e conheceu gente do mundo inteiro em seu tuk tuk. nossos caminhos provavelmente nunca mais vão se cruzar, mas fico pensando na sorte que temos por poder conhecê-lo, dividir um dia com ele, formar uma conexão tão longe de casa. o mundo é imenso, e às vezes você pode fazer parte dele.
O FIM
em Delhi, finalmente passamos uma noite no AirBnb que estamos alugando desde o dia anterior. combinamos de encontrar nossa colega R na manhã seguinte, embora eu esteja com medo de perder o horário de check-out e atrasar pro aeroporto. vou meio a contragosto e não levo nem meu cartão de crédito, porque não vou comprar nada.
ledo engano.
em Lajpat Nagar, você vai comprar alguma coisa. não faço as regras. são muitas lojas, muitos tecidos, muitas opções. é aqui também que percebo que não comprei presentes pra ninguém no brasil. quando entramos na loja Vishal Rajasthan Emporium, fica claro que tenho um problema.
escolho blusas pra minha mãe e irmã, um kurta pro meu pai, e percebo que não vou conseguir sair da loja sem um lehenga que eu vi num manequim. ele não me serve direito, não temos tempo pra ajustes, e ele definitivamente não cabe na minha mala, mas eu levo. R passa o cartão pra mim, e eu mando o dinheiro pra ela depois (um BEIJO pro UPI, o PIX da Índia).
de volta ao AirBnb, arrumamos nossas malas com pressa. o funcionário da casa vem entregar as roupas que o Augusto mandou pra lavar há 2 noites. ele nos chama e pede pra gente pegar o que é nosso. percebo uma roupa estranha no meio, lantejoulas verde-água que definitivamente não vieram com a gente. do meu quarto, escuto o Augusto tentar explicar usando o Google Tradutor que aquelas não eram as roupas dele, que ele não pode esperar, o voo é pro Brasil e sai muito em breve.
não tem jeito. precisamos ir. mas olha pelo lado bom: sem os pertences do Augusto, agora tem espaço pro meu lehenga na mala dele!
já no aeroporto, de volta ao wifi, Augusto recebe uma mensagem do serviço de lavanderia.

na Índia, o aeroporto é controlado pelo exército. pra entrar, você precisa mostrar seu comprovante de voo, e eles verificam cada linha. como você pode imaginar, caro leitor, não ia pegar muito bem sair do aeroporto, pegar um pacote com alguém e voltar pra dentro. ou seja…
as roupas dele ficaram em Nova Déli mesmo.
O VOO DE VOLTA
os funcionários da IndiGo são dramaticamente menos agradáveis que os da Qatar, e não tem nada pra fazer no voo de volta pra Doha, além de ouvir as broncas que uma criança sentada atrás da gente tá levando dos pais. mas chegamos, e o aeroporto ferve, com o grand prix do qatar acontecendo no mesmo final de semana. temos 7h de escala.
gastamos mais pontos de fidelidade da companhia aérea e nos sentamos na frente da loja de doces. ali, Nicole e Augusto passam horas me oferecendo uma sessão de terapia grátis, descobrindo absurdos cada vez maiores sobre a minha vida que eles não sabiam antes. eles falam, eu choro, os guardas do aeroporto não ficam nem um pouco felizes, e ali criamos o que, dali pra frente, se solidificaria numa amizade inabalável.
no fim das contas, minha parte favorita da viagem foi tê-la vivido com eles. já éramos amigos, mas algumas coisas você não faz sem se aproximar exponencialmente de alguém, e uma viagem como essa é uma delas.
nas 15 horas de volta pro Brasil, sentamos separados, todos no assento do meio, mas de algum jeito chegamos inteiros. alguém rouba minha sacola da duty free com chocolates. a demora pela minha mala na esteira é suficiente pra me assustar. nos despedimos entre terminais de Guarulhos e eu e augusto nos separamos da Nicole. no balcão da latam, o rapaz diz que o Augusto pegou o último assento disponível no voo e quase ficou sem, o que me deixa perplexa até hoje. uns 90 passos depois, Augusto percebe que largou o celular no balcão e volta correndo pra buscar.
voamos (sem intenção de trocadilho) pra segurança, e eu sou aleatoriamente escolhida pra checagem mais detalhada. a moça abre cada bolso da minha mochila e encontra montes e mais montes de lixo que eu vinha juntando a viagem toda. não tenho tempo pra explicar o conceito de junk journal, então deixo ela pensar que sou maluca e vou embora quando ela desiste de achar uma bomba, ou sei lá, no meio dos papéis de bala.
no último aeroporto, eu começo a passar mal de fome e quebram minha mala. a latam me envia 350 reais no pix. vamos embora. é bom estar em casa.
depois disso, nada nunca mais foi o mesmo.
quem é vivo sempre aparece. já fui e voltei de mais uma viagem depois dessa, que mais uma vez mudou minha vida. mas uma coisa de cada vez. se puderem, visitem a Índia! um beijo.















Eu não sei nem o que comentar. Adoro como você escreve, acho a dose de emoção ideal para me transportar… experiência sensacional essa sua…
Fica um gostinho de quero mais desse relato. Excelente, minha querida!! Bj.